Mãe e filho abraçados na cozinha, rindo

Ele já toma o remédio.O cocô não está mais duro.

Por que ele ainda segura?

A vontade vem e ele trava. Cruza as pernas, fica na ponta do pé, some atrás do sofá até passar.

Fica vermelho, faz uma força sem tamanho, e a força é para segurar. Você fala em sentar no vaso, ele muda de assunto.

E a pergunta que parece não ter resposta: isso é físico ou é emocional?

São os dois, conversando.

É o que a medicina chama hoje de distúrbio da interação intestino-cérebro (Roma V, 2026). E o cuidado olha para os dois.

O que acontece no corpo dele

Para o cocô sair, o músculo em volta do ânus precisa relaxar.

Esse músculo (o esfíncter) tem duas partes.

A de dentro

Funciona pelo sistema nervoso autônomo, sozinha, sem a criança mandar. Com tensão e medo, ela custa a soltar.

A de fora

A criança controla. É essa que ela aperta no começo.

A criança que sentiu dor aprendeu um atalho: quando a vontade vem, aperta. No começo era proteção. Com o tempo, o aperto passa a vir antes de ela decidir qualquer coisa.

Por isso ele pode querer fazer e não conseguir: a barriga empurra e o músculo fecha ao mesmo tempo. O remédio deixou o cocô mais fácil de sair, e o reflexo de apertar continua lá, esperando ser reensinado.

Parece teimosia.

É um reflexo que o corpo aprendeu.

Onde a casa trava

Nas horas mais comuns do dia.

  • Depois do jantarVocê vê as pernas cruzadas, diz “vai no banheiro, não dá medo”, e ele responde que não está com vontade.
  • No vasoEle chora, e alguém fala “faz força”.
  • Na roupa sujaA bronca sai antes de dar tempo de pensar.
  • À noiteA paciência acaba e a hora do banheiro vira briga.

Em cada uma dessas horas, o corpo dele escuta a mesma coisa: banheiro é perigo. E aperta mais.

Como ele perde esse medo

Começa por reconhecer que, para ele, o medo é real.

E a dificuldade também. Quando ele ouve isso, entende que vocês estão no mesmo time.

“Dá medo mesmo.”
“Não está sendo fácil.”
“Eu fico aqui com você.”

E quando todo mundo que cuida dele fala igual, o corpo ouve a mesma coisa toda vez:

aqui é seguro.

Mãe trançando o cabelo da filha, que segura um gatinho de pelúcia

O corpo aprendeu repetindo, e é repetindo que ele desaprende. Um treino curto todo dia, no mesmo horário, depois de uma refeição. E não é sentar e esperar: ele sopra, brinca com a massinha, ouve uma história, enquanto o corpo aprende que o vaso é um lugar para soltar. Ninguém pergunta se saiu cocô.

A criança aprende com segurança e no tempo dela, como quem tem medo de dirigir: ninguém coloca essa pessoa no meio do trânsito de repente.

Entender é a parte que cabe numa leitura. O difícil é o resto.

  • Fazer todo dia, cansada, depois do jantar.
  • Saber o que dizer na hora em que ele trava.
  • Fazer o pai, a avó e a escola falarem igual.
  • Saber, depois de algumas semanas, se está mudando.
Sentar sem Medo

Um programa no celular que carrega essa parte com você.

Organizado pelas diretrizes internacionais de 2026.

  • O treino do dia

    De 3 a 7 minutos, com atividades de sopro e de massinha (o app marca o tempo) e as histórias do Mimo, um gatinho que também tem medo de fazer cocô e em quem a criança se reconhece.

  • A frase certa

    Para cada momento difícil, a mesma para todo mundo da casa.

  • Água e fibra

    Quanto o seu filho precisa, calculado em copos e em gramas.

  • O diário

    Mostra, semana a semana, como está a evolução, num resumo para levar ao médico.

Ver como funciona

O remédio continua com o médico de vocês.

O treino é para quando o cocô já não machuca. Se, mesmo com o remédio, ele continua duro, dói ou escapa na roupa com frequência, o primeiro passo é rever o tratamento com o médico de vocês.

Ainda não é o momento?
Carolina Supino
Dra. Carolina Supino · Médica · CRM-SP 135729 · Cirurgia Pediátrica · RQE 49179