Tratamento da encoprese: o que esperar, por quanto tempo e o que sabota o processo

Quando uma família começa o tratamento da encoprese, a primeira pergunta costuma ser: o que fazer? A segunda, que aparece logo depois, é: por quanto tempo?

Esse artigo existe para responder as duas com honestidade.

O tratamento da encoprese não é rápido. E entender isso muda a evolução.

A encoprese quase sempre está ligada à constipação funcional crônica, entenda como isso acontece aqui. O escape de fezes não é o problema central, é o sinal de que o intestino vem sendo pressionado há tempo. E um intestino que acumulou meses de retenção não se reorganiza em semanas. Chamamos de incontinência fecal por transbordamento.

Quando a criança é autista, o caminho é o mesmo e o ritmo costuma ser outro. Escrevi separadamente sobre escape de fezes na criança autista..

A maioria das crianças com encoprese tem boa evolução. Mas esse caminho é longo, e a expectativa de resolução rápida é um dos fatores que mais atrapalha o processo, porque quando a melhora não vem no prazo imaginado, as famílias começam a duvidar, mudar de conduta ou interromper o tratamento.

O que sabota o tratamento da encoprese antes de ele terminar

Existe um padrão documentado nas pesquisas sobre adesão ao tratamento em constipação infantil que vale nomear diretamente.

Muitos pais, ao observarem o filho usando laxante por meses, chegam a uma conclusão que parece fazer sentido: ele está ficando dependente do remédio. E decidem parar.

O que acontece depois confirma essa crença: sem o medicamento, o filho piora. A família interpreta isso como dependência e fica presa num ciclo de parar, ver piorar, voltar, repetindo o processo do início cada vez que interrompe.

O problema é que o intestino não funciona assim. Ele precisa de tempo contínuo para se reabilitar.

Cada interrupção não supervisionada não é uma pausa, é um recomeço. O processo de reorganização intestinal, que levaria meses em continuidade, começa do zero.

A não-adesão ao tratamento de manutenção é um preditor forte de mau resultado em doenças crônicas. No caso da encoprese, isso se traduz em tratamentos que duram anos a mais do que precisariam, crianças que chegam à adolescência ainda com o problema, e famílias exaustas de um percurso que girou em círculos.

A interrupção do laxante é sempre orientada pelo médico que acompanha a criança, e tem critérios clínicos claros para acontecer: escrevi sobre quando parar o laxante infantil, com os quatro marcos que a diretriz descreve.


O tratamento da encoprese precisa caber na rotina, e não competir com ela

Dito isso, existe outro lado da mesma moeda: um tratamento que a família não consegue sustentar também não funciona.

Um primeiro aspecto importante envolve a medicação. Ela deve ter uma boa aceitação. Deve ser de introdução fácil na rotina.

Segundo. As pesquisas sobre incontinência fecal funcional em crianças apontam que o programa de treinamento intestinal é considerado o aspecto mais importante do tratamento, mais do que o medicamento isolado. E também é o mais difícil de manter, justamente porque exige constância no cotidiano.

O que isso significa na prática? Que o tratamento da encoprese tem componentes que precisam ser incorporados ao dia a dia, não encaixados nos intervalos dele.

A rotina evacuatória, por exemplo, funciona melhor quando acontece em horários previsíveis, preferencialmente após as refeições, aproveitando o reflexo gastrocólico natural do corpo. Isso não é uma recomendação vaga, envolve fisiologia. O corpo tem janelas de maior disponibilidade para evacuar. Um programa que ignora isso tende a gerar mais frustração do que resultado.

O mesmo vale para a posição no vaso, o tempo sentado, o suporte para os pés, a ausência de pressão no ambiente. Cada um desses elementos tem justificativa clínica. E nenhum deles funciona se for tratado como tarefa extra, eles precisam virar hábito.

O que “caber na rotina” não significa

Não significa simplificar o tratamento até ele se tornar irrelevante.

Famílias que “adaptam” o protocolo removendo o que parece difícil, pulando doses, encurtando o tempo no vaso, adiando a rotina evacuatória para quando for mais conveniente, costumam ter menos resultado e mais desgaste, porque investem esforço sem colher progresso.

Caber na rotina significa que o tratamento foi desenhado de forma realista para aquela família, aquela criança, aquela rotina. Não que ele foi esvaziado para se tornar mais fácil.

Mas pensado e elaborado com dedicação para a família.

Isso exige que o cuidado seja individualizado, e que a família entenda o porquê de cada parte do plano. Porque um plano que não é compreendido não é seguido. E um plano que não é seguido não funciona.

O que a família que está nesse caminho precisa saber

O tratamento da encoprese é longo.

Vão existir oscilações. Semanas melhores e semanas piores. Isso não significa que o tratamento falhou, significa que o intestino está se reorganizando de forma não-linear, como acontece com qualquer processo de reabilitação.

A pergunta que orienta o percurso não é “por que ainda não resolveu?”.

É “estamos mantendo o plano mesmo nas semanas difíceis?”

O que sustenta uma família no meio das oscilações não é só o medicamento certo.

É entender por que ele é necessário, o que cada sintoma está sinalizando, e para onde o tratamento está caminhando. Essa compreensão não elimina a dificuldade, mas transforma a forma de atravessá-la.

A criança que chega ao fim do tratamento e não volta para ele

Encoprese tem tratamento. Mas o tratamento da encoprese precisa de tempo, constância e compreensão para funcionar.

Quando a família entende o mecanismo, sabe o que esperar e consegue sustentar o plano no dia a dia, as chances de recuperação são reais. Os números de longo prazo mostram isso.

O que decide o desfecho é a direção mantida, inclusive nas semanas em que o caminho parece não avançar.

O que muda quando alguém conduz o plano com você

Manter um tratamento por meses fica mais leve quando a família entende o porquê de cada parte dele, e quando tem com quem conferir no meio do caminho.

Conheça nosso cuidado
Dra. Carolina Supino cuidado em constipação infantil

Quanto tempo dura o tratamento da encoprese?

Não existe prazo único. A diretriz europeia e americana pede manutenção por pelo menos dois meses, e todos os sintomas resolvidos por pelo menos um mês antes de a medicação ser interrompida. Uma parcela considerável das crianças precisa de tratamento prolongado para manter a remissão, e isso não é sinal de que o plano não está funcionando.

Por que meu filho piora quando eu paro o laxante?

Porque o reto ainda não recuperou calibre e sensibilidade. A fase de manutenção existe para impedir que as fezes voltem a se acumular enquanto isso acontece, e retirar a medicação antes do tempo retira essa condição no meio do processo. A retirada tem quatro critérios, e eles estão descritos em quando parar o laxante infantil.

A rotina de banheiro precisa ser todo dia?

Sim, e é ela que sustenta o resultado depois que a medicação sai. Os critérios de Roma V colocam a educação da família no mesmo patamar de importância do tratamento medicamentoso, e listam o diário de evacuações, a rotina de banheiro e o sistema de recompensa pelas evacuações bem-sucedidas. Horários previsíveis, de preferência depois das refeições, com os pés apoiados.

Semanas piores no meio do tratamento querem dizer que ele não está funcionando?

Não. A reabilitação intestinal não é linear, e oscilar faz parte do percurso. O que decide o desfecho é manter o plano nas semanas difíceis, e é para isso que servem as reavaliações combinadas antes de serem necessárias.

Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação médica individualizada.

Referências bibliográficas

  1. Tabbers MM, DiLorenzo C, Berger MY, Faure C, Langendam MW, Nurko S, Staiano A, Vandenplas Y, Benninga MA. Evaluation and treatment of functional constipation in infants and children: evidence-based recommendations from ESPGHAN and NASPGHAN. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2014;58(2):258–274. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24345831/
  2. Rajindrajith S, Devanarayana NM, Crispus Perera BJ, Benninga MA. Functional fecal incontinence in children: epidemiology, pathophysiology, evaluation and management. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2021;72(6):794–801. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33534351/
  3. Koppen IJN et al. Treatment adherence in children with functional constipation: a prospective cohort study. Thesis, Amsterdam UMC, 2020.

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