O remédio começou numa terça. Três semanas depois, já fazia quatro dias que o cocô não saía, e a criança tinha voltado a se esconder atrás da porta do quarto na hora do cocô. Você fez a conta, e ela bateu.
A conta costuma bater mesmo. A parte difícil vem logo em seguida, quando a única saída que aparece é retirar a medicação, e retirar a medicação nem sempre é possível. Existem medicamentos que prendem o intestino da criança, e o seu filho pode estar usando um deles por um motivo que continua valendo.
Sou cirurgiã pediátrica e cuido de constipação em crianças. É desse ângulo que vou escrever, e o ângulo muda o que aparece: quando a medicação é necessária, a pergunta útil passa a ser o que fazer com o intestino enquanto o remédio continua.
Você percebeu a mudança, e a informação que decide está com você
A via de cuidado da constipação funcional pediátrica publicada em 2026 pela Associação Americana de Gastroenterologia junto com a Sociedade Norte-Americana de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica, assinada por Rodriguez e colaboradores, traz uma tabela de diagnóstico diferencial. Nessa tabela, “medicamentos” aparece como causa possível de constipação, e a característica-chave listada para essa linha é curta: início de medicação nova. O exame que a tabela indica para essa linha é história médica, e a mesma via escreve que uma história medicamentosa detalhada tem importância máxima em todas as faixas etárias.
Quem tem essa informação é a família. A data em que o remédio entrou, a semana em que o cocô mudou, a diferença entre antes e depois. Pouco disso chega ao prontuário com essa precisão, e boa parte das consultas termina sem essa conversa porque ninguém puxou o assunto.
Os medicamentos que prendem o intestino: as classes que a diretriz nomeia
A mesma via de 2026 nomeia quatro grupos com uma frase direta: antipsicóticos, antidepressivos, antiepilépticos e anticolinérgicos são reconhecidos como contribuintes para a constipação funcional, e as alternativas devem ser discutidas com o médico que prescreve. São esses os principais medicamentos que prendem o intestino da criança na prática pediátrica.
O mecanismo explica por que classes tão diferentes chegam ao mesmo lugar.
Os anticolinérgicos bloqueiam a acetilcolina, o mensageiro que faz a musculatura do intestino contrair e a mucosa secretar. Menos contração e menos secreção significam um bolo fecal que anda devagar e que chega ao reto mais seco do que sairia. Muitos remédios de outras famílias têm ação anticolinérgica considerável sem serem chamados de anticolinérgicos. A lista real é maior que a lista do rótulo.
Os antipsicóticos somam a essa ação outros três efeitos que pesam no intestino: sedação, aumento de peso e redução do movimento ao longo do dia. Movimento pesa aqui. Na paralisia cerebral, onde a mobilidade é o fator mais limitado, Noritz e colaboradores registraram em 2022, no relatório da Academia Americana de Pediatria, que a constipação chega a 75% das crianças, com a mobilidade reduzida entre os fatores de risco nomeados.
Os antiepilépticos atuam sobre canais e receptores que também existem no sistema nervoso do próprio intestino, e vários deles sedam. O efeito varia bastante de molécula para molécula dentro da mesma classe, o que torna a observação em casa mais útil do que a generalização.
Os antidepressivos entram na lista da diretriz pelo mecanismo: parte deles tem ação anticolinérgica relevante. Mais adiante nesta página aparece o dado de ensaio clínico dessa classe, e ele não tem tamanho para confirmar nem para descartar o efeito.
Os opioides entram em cena poucas vezes na pediatria, quase sempre depois de uma cirurgia ou em dor intensa, e são a classe mais previsível de todas. Eles agem em receptores que existem no plexo do próprio intestino, e não apenas no cérebro. A constipação induzida por opioide é reconhecida no Roma V como um quadro com nome próprio e com linha de tratamento própria, incluindo medicações desenhadas para agir só na periferia, preservando o efeito analgésico central.
As medicações usadas no transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, estimulantes e não estimulantes, fecham o grupo, e o caminho delas é mais indireto.
E há o ferro, que aparece em quase toda conversa sobre intestino preso e que tem uma história mais longa do que cabe aqui. Ele volta numa página só dele. Ele ganhou uma página só dele.
A boca seca e o apetite: dois caminhos opostos que terminam no mesmo reto cheio
Existe uma revisão Cochrane que permite comparar essas classes lado a lado, com número. Iffland, Livingstone, Jorgensen, Hazell e Gillies publicaram em 2023 uma revisão sobre medicações usadas para irritabilidade, agressividade e autoagressão no transtorno do espectro autista, e ela reúne os efeitos adversos por grupo de medicação.
No grupo das medicações relacionadas ao TDAH, a constipação apareceu com risco relativo de 2,68, com intervalo de confiança de 1,61 a 4,45, em 5 estudos e 220 participantes, sem heterogeneidade entre os estudos. No mesmo grupo, boca seca com risco relativo de 5,92, náusea 3,08 e desconforto abdominal 2,26.
Ainda em Iffland e colaboradores, no grupo dos antipsicóticos atípicos, a constipação apareceu com risco relativo de 2,36, intervalo de 1,28 a 4,34, em 7 estudos e 596 participantes, também sem heterogeneidade, com certeza da evidência classificada como baixa pelos próprios autores. E aumento de apetite com risco relativo de 2,38.
Na mesma revisão, nos antidepressivos, a constipação ficou em risco relativo de 0,95, com intervalo de confiança de 0,09 a 10,03, em 2 estudos e 70 participantes. Esse intervalo vai de “reduz dez vezes” a “aumenta dez vezes”, e não permite afirmar nada em nenhuma direção. A diretriz aponta a classe pelo mecanismo anticolinérgico, e o ensaio clínico nessa população específica não teve tamanho para confirmar nem para descartar. As duas informações convivem, e a distância entre elas é de método.
Os números do primeiro grupo desenham um caminho. A boca seca com risco relativo de 5,92 é o sinal visível de uma ação que não acontece só na boca: a mesma redução de secreção acontece ao longo do tubo digestivo. Some a isso a redução de apetite, e o tamanho dela é conhecido. Storebø e colaboradores publicaram em 2018 uma revisão Cochrane de estudos não randomizados sobre efeitos adversos do tratamento estimulante do TDAH em crianças e adolescentes: redução de apetite em 31,1% das crianças, com intervalo de 26,5% a 36,2%, reunindo 84 estudos e 11.594 participantes, e perda de peso em 8,6%. A constipação relatada diretamente naquela mesma revisão foi de 7,6%, em 4 estudos e 249 participantes.
O efeito sobre o apetite é cerca de quatro vezes mais frequente do que a constipação registrada como efeito adverso. Menos comida é menos fibra, menos líquido e menos volume. Menos volume no reto é menos estímulo, e menos estímulo é menos vontade. Boa parte do efeito não chega ao intestino pela farmacologia direta: chega pelo prato.
Os antipsicóticos fazem o percurso contrário e terminam no mesmo lugar. Aumentam o apetite, trazem peso e sedação, e reduzem o quanto a criança se move no dia.

O que os ensaios encontraram, e o que 742 mil crianças mostraram depois
McKeown, Hisle-Gorman, Eide, Gorman e Nylund publicaram em 2013, na revista Pediatrics, uma coorte com 742.939 crianças de 4 a 12 anos do sistema de saúde militar americano. Dessas, 32.773 tinham diagnóstico de TDAH.
O primeiro resultado confirma o esperado: constipação em 4,1% das crianças com TDAH contra 1,5% das crianças sem TDAH, com risco relativo de 2,88 e intervalo de confiança de 2,72 a 3,05. Incontinência fecal em 0,9% contra 0,15%. As crianças com TDAH tiveram 84 consultas por constipação por mil crianças-ano, contra 30 nas demais.
Ainda em McKeown e colaboradores, dentro do grupo com TDAH, 80,4% usavam medicação. A taxa de constipação entre as crianças medicadas foi de 4,2%. Entre as não medicadas, 4,1%. O risco relativo entre um grupo e outro foi de 1,02, com intervalo de confiança de 0,90 a 1,17. Nas consultas por constipação, também não houve diferença significativa.
Numa amostra de quase três quartos de milhão de crianças, medicar ou não medicar o TDAH não alterou a proporção de crianças com o intestino preso.
A via de 2026 chega ao mesmo lugar por outro caminho e escreve com todas as letras que tratar o TDAH não alivia os sintomas de constipação, e que a constipação precisa ser conduzida como problema próprio.
Isso parece contradizer o número da Cochrane, que encontrou risco quase três vezes maior de constipação com as medicações de TDAH. As duas coisas cabem juntas. A revisão Cochrane mede o que aparece de novo dentro de um ensaio clínico de algumas semanas, com participante e médico registrando efeitos adversos: ela captura o gatilho. A coorte de McKeown mede quantas crianças carregam um quadro crônico ao longo de dois anos: ela captura o que ficou. As duas estão certas, e juntas dizem uma coisa que nenhuma delas diz sozinha.

Por que retirar o remédio raramente devolve o intestino que a criança tinha
A medicação acende a fogueira. O ciclo, depois de aceso, anda por conta própria.
O Roma V descreve esse ciclo numa figura própria, e a descrição é simples: um evento desencadeante leva a criança a viver uma evacuação desagradável, nasce o medo de repetir aquilo, e o ciclo se instala. O evento pode ser uma fissura, uma virose, uma mudança de rotina, uma escola nova. Pode ser, também, um remédio que endureceu o cocô durante três semanas.
O que acontece depois já não depende do gatilho. As fezes que ficam no reto perdem água e endurecem. A saída seguinte dói mais que a anterior. A criança aprende a segurar, e segurar funciona no curto prazo. O reto acumula, e o reto que acumula por tempo suficiente se dilata.
O Roma V deu nome a essa etapa. A hipossensibilidade retal entrou na classificação como um distúrbio anorretal de sensação, com a descrição do que a família vê em casa: a vontade de evacuar chega enfraquecida, a criança faz força sem conseguir, ou recorre a manobras para conseguir. No capítulo pediátrico, o mesmo documento registra o achado correspondente nas crianças: as que têm incontinência fecal associada à constipação costumam apresentar limiar de sensação mais alto na manometria, o que aponta para um reto dilatado e com sensação reduzida, e é essa sensação reduzida que sustenta a retenção. A partir daí, o que mantém o quadro é a mecânica do reto cheio, não mais o remédio.
Retirar o gatilho quando o ciclo já está rodando tem custo dos dois lados. A criança perde a medicação que estava ajudando no comportamento, na crise convulsiva ou na capacidade de estar na sala de aula, e o intestino continua preso do mesmo jeito.
Isso não torna inútil a conversa com quem prescreve. A via de 2026 pede explicitamente que as alternativas sejam discutidas com o médico responsável pela prescrição, e existem trocas dentro de uma mesma classe que pesam menos no intestino. O que muda é a ordem: o intestino passa a ser tratado como problema próprio, em paralelo, sem ficar esperando a decisão sobre o remédio.

O que o Roma V pede antes de chamar de constipação funcional
Um dos critérios do Roma V fala diretamente sobre remédio.
Pelo Roma V, publicado no capítulo pediátrico de Di Lorenzo e colaboradores (2026) na revista Gastroenterology, o diagnóstico de constipação funcional exige pelo menos dois dos seguintes, ocorrendo no último mês:
- Em média, duas evacuações ou menos por semana
- Em média, pelo menos um episódio de escape de fezes por semana, critério que se aplica apenas a crianças que já usam o vaso
- História de postura de retenção, esforço ou retenção inapropriada das fezes
- História de evacuações dolorosas ou endurecidas, sendo endurecidas os tipos 1 ou 2 da escala de Bristol, ou os tipos 1, 2 ou 3 da escala de fezes de lactentes de Bruxelas
- Presença de grande massa fecal no reto
- História de fezes de grande diâmetro
Somam-se dois requisitos: depois de avaliação apropriada, os sintomas não podem ser totalmente explicados por outra condição médica, e o quadro não pode preencher critérios de síndrome do intestino irritável.
É o penúltimo requisito que responde à pergunta do remédio. Se a constipação for totalmente explicada pela medicação, ela sai do diagnóstico de constipação funcional. Na prática, em crianças que usam medicação de forma contínua, as duas coisas costumam conviver: existe um componente funcional, com o ciclo de medo e retenção instalado, e existe um remédio empurrando na mesma direção. O Roma V, aliás, reconhece de forma explícita que um distúrbio da interação intestino-cérebro pode coexistir com outras condições que produzem sintomas digestivos.
Duas mudanças que o próprio comitê explica na seção de justificativas ajudam a ler esses critérios. A idade mínima de 4 anos saiu: existe hoje um conjunto único de critérios para crianças de todas as idades, inclusive as que ainda não desfraldaram. E a palavra “esforço” entrou na descrição da postura de retenção porque, nas palavras do comitê, o segurar as fezes é frequentemente mal interpretado pelos pais como esforço para evacuar. A criança que fica dura, vermelha e de pé atrás do sofá costuma estar fazendo força para não evacuar.
O Roma V, na edição de 2026, estima que mais de 95% da constipação na infância é funcional, e menos de 5% resulta de doença orgânica de base.
A linha do tempo de duas colunas que vale mais que a bula
Ler bula não resolve essa pergunta. Quase toda bula lista constipação entre os efeitos possíveis, e uma lista que serve para quase todos os remédios não ajuda a decidir sobre um.
O que separa é a data.
Pegue uma folha e faça duas colunas. Na primeira, cada medicação que a criança usa, com o mês em que começou, o mês em que parou (se parou), e os momentos em que a dose foi ajustada. Na segunda, o que aconteceu com o intestino: em que mês a frequência caiu, quando apareceu dor na hora de evacuar, quando começou o escape na roupa, quando ela passou a se esconder para fazer cocô, e como estava a consistência, usando a escala de Bristol como referência.
Depois, leia as duas colunas juntas.
Se a mudança do intestino apareceu poucas semanas depois da entrada da medicação, e antes disso não havia sinal, o remédio é provavelmente o gatilho principal. Se já existiam sinais meses antes, o remédio agravou um quadro que já estava correndo, e retirá-lo devolve a criança ao ponto em que ela já estava. Se a constipação começou junto com outra coisa, uma virose, uma cirurgia, uma mudança de escola, uma viagem, o remédio pode ter sido coincidência de calendário.
Leve essa folha para quem prescreve. A conversa muda bastante quando as datas estão na mesa: ela vira uma troca de informação.

O que custa esperar a medicação acabar para cuidar do intestino
Existe uma armadilha específica em crianças neurodivergentes, e ela está descrita na via de 2026 com clareza. Crianças neurodivergentes podem apresentar sintomas atípicos de constipação: piora de comportamento, queda de apetite e vômitos, no lugar das queixas digestivas clássicas. O documento acrescenta que o exame físico pode ser inviável por agitação ou por sensibilidade sensorial, e que dificuldades alimentares e questões sensoriais agravam o quadro.
O intestino cheio se apresenta como piora de comportamento. A piora de comportamento costuma levar a um ajuste na medicação psiquiátrica. Vários dos ajustes disponíveis pesam no intestino. O ciclo se fecha também por fora do corpo da criança, na sequência de decisões que a família e a equipe vão tomando de boa-fé.
Há um segundo custo, e ele está no documento de consenso da Sociedade Internacional de Continência Infantil sobre transtornos do neurodesenvolvimento e incontinência, assinado por von Gontard e colaboradores em 2022. O texto registra que, quando o transtorno do neurodesenvolvimento não é diagnosticado nem tratado, ele interfere no tratamento da incontinência e leva a resultados menos favoráveis. A recíproca vale: um intestino que ninguém está tratando atrapalha tudo o mais que está sendo tentado ao lado.
E o tempo cobra. Tabbers e colaboradores registraram em 2014, na diretriz conjunta da Sociedade Europeia e da Sociedade Norte-Americana de Gastroenterologia Pediátrica, que crianças tratadas de forma adequada e precoce têm cerca de 80% de chance de recuperação sem laxantes em seis meses, contra 32% quando o tratamento demora. “Adequado”, nessa mesma diretriz, tem definição: abordagem individualizada, educação da família, desimpactação prévia quando existe fecaloma, manutenção, modificação comportamental e dietética, e reavaliação ativa da resposta.
O Roma V, na edição de 2026, acrescenta um número que dimensiona o quanto o quadro endurece com o tempo: numa revisão sistemática citada pelo comitê, apenas 50% das crianças encaminhadas a um centro terciário e acompanhadas por seis a doze meses se recuperaram e conseguiram deixar os laxantes.
Um último dado explica por que tantos desses quadros passam despercebidos por anos. O comitê do Roma V, na mesma edição de 2026, registra que a dor abdominal está presente em até 65% das crianças que chegam com um distúrbio da evacuação, e decidiu, ainda assim, não incluir a dor entre os critérios diagnósticos. Uma criança pode ter dor de barriga há anos, ter feito exames, e nunca ter tido o intestino examinado como a origem.
Quando o remédio não é o principal responsável
Nem toda constipação que aparece durante um tratamento vem do tratamento. A via de 2026 lista sinais que pedem investigação antes de qualquer outra coisa: início nos primeiros meses de vida, atraso na eliminação do mecônio, distensão abdominal com vômitos, ganho de peso insuficiente, sangue nas fezes, alteração na posição ou no aspecto do ânus, constipação de início recente acompanhada de retenção urinária ou de sintomas neurológicos, e sinais gerais que apontem para doença celíaca ou para hipotireoidismo. A mesma via cita ainda a intoxicação por chumbo entre as causas a considerar. E nem todo apoio que a família acrescenta muda o quadro: o que a evidência mostra sobre probiótico vale a leitura antes de somar mais uma coisa à rotina.
Há também situações em que o remédio é um fator entre vários. Na paralisia cerebral, Noritz e colaboradores nomeiam mobilidade limitada, tônus baixo, dieta pobre em fibra e líquido e motilidade reduzida como fatores que caminham juntos. Tirar um deles da conta deixa os outros quatro no lugar.
A chance que existe quando o intestino é tratado cedo, com a medicação em curso
A decisão sobre o remédio e a decisão sobre o intestino são duas decisões diferentes, tomadas por pessoas diferentes, e só uma delas depende de outro médico.
Um tratamento conduzido para valer, nessa situação, tem forma reconhecível.
Ele começa com uma avaliação que responde se existe acúmulo agora, porque manutenção iniciada sobre um reto cheio costuma produzir mais escape, e a família conclui que o tratamento não funciona quando na verdade a ordem das etapas ficou invertida.
Ele tem plano escrito, com a ordem das etapas, para que ninguém precise reconstruir a conduta de memória entre uma consulta e outra.
Ele marca a data da reavaliação já na primeira consulta.
Ele tem critérios definidos com antecedência para mudar a conduta, de modo que a mudança aconteça no dia em que o critério bate.
Ele tem acesso entre as consultas, porque as dúvidas que fazem uma família abandonar o tratamento aparecem numa quarta-feira à noite.
E ele inclui a conversa com quem prescreve, conduzida com dado na mão: a linha do tempo, o que a via de 2026 recomenda discutir, e a alternativa que faz sentido colocar na mesa.
Isso descreve um processo, e o processo é o que se pode garantir. Sobre resultado, o que a literatura permite dizer já está acima, nos 80% contra 32% de Tabbers e colaboradores, com a condição que essa diferença exige: adequado e cedo.
Se o seu filho usa uma medicação que não dá para simplesmente retirar, e o intestino dele parou junto, esses dois problemas não precisam esperar um pelo outro.
Se o remédio precisa continuar, o intestino ainda assim pode ser tratado. O que isso pede é uma avaliação que diga onde o quadro está hoje, um plano com ordem e data, e alguém conduzindo as duas frentes ao mesmo tempo, com você.
É esse o trabalho que eu faço. Veja como o acompanhamento é organizado.

MÉDICA · CRM-SP 135729 · Cirurgia Pediátrica · RQE 49179
Prática dedicada ao cuidado da constipação infantil.
Perguntas que chegam com frequência
Quais medicamentos prendem o intestino da criança?
A via de cuidado da AGA e da NASPGHAN de 2026 nomeia quatro grupos como contribuintes reconhecidos para a constipação funcional: antipsicóticos, antidepressivos, antiepilépticos e anticolinérgicos. As medicações usadas no TDAH entram pelo caminho indireto da redução de apetite, e os opioides, quando entram, são a classe mais previsível de todas. A mesma via pede que as alternativas sejam discutidas com o médico que prescreve.
Se eu parar o remédio, a constipação do meu filho passa?
Nem sempre. Na coorte de McKeown e colaboradores (2013), com 742.939 crianças, a taxa de constipação entre crianças com TDAH medicadas (4,2%) e não medicadas (4,1%) foi praticamente a mesma, com risco relativo de 1,02. A leitura mais provável é que a medicação funcione como gatilho, e que o ciclo de retenção, uma vez instalado, passe a se sustentar sozinho pela mecânica do reto cheio.
Remédio de TDAH prende o intestino?
Na revisão Cochrane de Iffland e colaboradores (2023), as medicações relacionadas ao TDAH apareceram com risco relativo de constipação de 2,68 (intervalo de confiança de 1,61 a 4,45), em 5 estudos e 220 participantes. O efeito mais frequente, porém, é sobre o apetite: na revisão Cochrane de Storebø e colaboradores (2018), a redução de apetite apareceu em 31,1% das crianças, contra 7,6% de constipação relatada diretamente. Menos comida é menos volume no reto, e menos volume é menos vontade.
Dá para tratar a constipação sem parar a medicação?
Sim, e costuma ser o caminho mais seguro quando a medicação é necessária. A via de 2026 é explícita ao dizer que tratar o TDAH não alivia os sintomas de constipação e que a constipação precisa ser conduzida como problema próprio. As duas decisões são independentes: a do remédio depende de quem prescreve, a do intestino não.
Como saber se foi o remédio que prendeu o intestino do meu filho?
Pela data. Na tabela de diagnóstico diferencial da via de 2026, a característica-chave associada a medicamentos é o início de medicação nova, e o exame indicado é história médica. Monte duas colunas, uma com as datas de cada medicação e outra com as datas em que o intestino mudou, e leia as duas juntas. Se o intestino mudou poucas semanas depois da entrada do remédio, e não havia sinal antes, o remédio é provavelmente o gatilho principal.
Antidepressivo prende o intestino da criança?
A diretriz de 2026 lista a classe pelo mecanismo, porque parte dos antidepressivos tem ação anticolinérgica relevante. O dado de ensaio clínico, porém, é frágil: na revisão Cochrane de Iffland e colaboradores (2023), a constipação com antidepressivos ficou em risco relativo de 0,95, com intervalo de confiança de 0,09 a 10,03, em apenas 2 estudos e 70 participantes. Esse intervalo não permite afirmar nada em nenhuma direção.
Ferro prende o intestino da criança?
É a queixa mais comum entre os suplementos, e ela tem particularidades que não cabem numa lista de classes de medicamento. O ferro ganha uma página própria neste blog, com a evidência específica e o que muda na prática.
Quando a constipação que apareceu com o remédio precisa de investigação?
Quando vêm junto sinais de alarme. A via de 2026 lista início nos primeiros meses de vida, atraso na eliminação do mecônio, distensão abdominal com vômitos, ganho de peso insuficiente, sangue nas fezes, alteração na posição ou no aspecto do ânus, constipação de início recente com retenção urinária ou sintomas neurológicos, e sinais gerais que apontem para doença celíaca ou hipotireoidismo. Nesses casos a investigação vem antes de atribuir o quadro ao medicamento.
Referências
Rodriguez L, Ambartsumyan L, Baumgartner K, et al. American Gastroenterological Association-North American Society for Pediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition Pediatric Functional Constipation Clinical Care Pathway. Clinical Gastroenterology and Hepatology. 2026. Buscar no PubMed
Iffland M, Livingstone N, Jorgensen M, Hazell P, Gillies D. Pharmacological intervention for irritability, aggression, and self-injury in autism spectrum disorder (ASD). Cochrane Database of Systematic Reviews. 2023;10:CD011769. Buscar no PubMed
McKeown C, Hisle-Gorman E, Eide M, Gorman GH, Nylund CM. Association of constipation and fecal incontinence with attention-deficit/hyperactivity disorder. Pediatrics. 2013;132(5):e1210-e1215. Buscar no PubMed
Storebø OJ, Pedersen N, Ramstad E, et al. Methylphenidate for attention deficit hyperactivity disorder (ADHD) in children and adolescents: assessment of adverse events in non-randomised studies. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2018;5:CD012069. Buscar no PubMed
Di Lorenzo C, Saps M, Chumpitazi BP, et al. Lower and Biliary Disorders of Gut-Brain Interaction: Child and Adolescent. Gastroenterology. 2026;170(6):1367-1387. Buscar no PubMed
Noritz G, Davidson L, Steingass K, et al. Providing a Primary Care Medical Home for Children and Youth With Cerebral Palsy. Pediatrics. 2022;150(6):e2022060055. Buscar no PubMed
von Gontard A, Hussong J, Yang SS, Chase J, Franco I, Wright A. Neurodevelopmental disorders and incontinence in children and adolescents: attention-deficit/hyperactivity disorder, autism spectrum disorder, and intellectual disability. A consensus document of the International Children’s Continence Society. Neurourology and Urodynamics. 2022. doi:10.1002/nau.24798. Buscar no PubMed
Tabbers MM, DiLorenzo C, Berger MY, et al. Evaluation and treatment of functional constipation in infants and children: evidence-based recommendations from ESPGHAN and NASPGHAN. Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition. 2014;58(2):258-274. Buscar no PubMed
Rome Foundation. Rome V Criteria for Disorders of Gut-Brain Interaction. Volume 1, capítulo pediátrico de distúrbios da evacuação e anorretais. 2026.
Material educativo. Não substitui avaliação médica individualizada.
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